Mônica Gardelli fala sobre as novas perspectivas para o uso pedagógico das tecnologias da informação
A palestra “Aprendendo, integrando, ensinando: novas perspectivas para o uso pedagógico das tecnologias da informação”, de acordo com a doutora Mônica Gardelli Franco, visa provocar uma reflexão sobre as mudanças que estamos vivendo no atual contexto, focalizar quais são as perspectivas possíveis, quais serão os eixos norteadores das ações de todos nós, educadores ou não, e discutir um pouco, a partir desta realidade, como as diversas mídias, integradas, podem contribuir para uma melhoria dos processos educacionais, da prática pedagógica e da formação do próprio professor.
A palestra de Mônica Gardelli será no dia 04 de junho, às 14h, no auditório Elis Regina, no Centro de Capacitação do Complexo Argos, e integra o ciclo de atividades programadas para esta 5ª Educática - Tecnologias da Informação e da Comunicação Educacional.
Mônica é doutoranda em Educação, mestre em Educação, pedagoga pela Universidade de São Paulo, professora, orientadora e assistente do PEC Municípios pela PUC-SP; professora de Pós-Graduação na Universidade São Judas Tadeu. Além disso, integra o grupo de trabalho Learning Space, e o grupo de pesquisa TEIA (Tecnologia, Educação, Informação e Alfabetização).
Conheça um pouco mais sobre a palestrante e sua visão sobre as novas tecnologias aplicadas à educação.
•Qual a sua visão sobre as novas tecnologias da informação e da comunicação educacional? Essa é uma tendência mundial nos processos educacionais?
As tecnologias da Informação e da comunicação fazem parte do cotidiano das pessoas. Mesmo as excluídas do acesso recebem essa influência em sua vida e sofrem as conseqüências da utilização destes instrumentos. É pela educação que a sociedade se mantém e se transforma. Muitos estudiosos destacam a importância da comunicação (seja ela oral, escrita, corporal) para que processos educativos sejam desencadeados, e dela depende sucessos ou insucessos educacionais. Desta forma, não é possível imaginar a educação desvinculada destes recursos, tanto quanto não era possível desvinculá-la do livro (que também é uma tecnologia que foi desenvolvida para o registro e a divulgação da informação). Na minha opinião, o trabalho pedagógico que utiliza as tecnologias da informação e comunicação é um processo irreversível. Penso que a tendência mundial é incorporá-las nas ações pedagógicas, desde as que envolvam diretamente a ação do educador, até as mais direcionadas à gestão dos espaços educativos.
• Como é a receptividade dos professores a essas inovações na sala de aula?
Estamos vivendo em um momento de transição no qual os papéis dos educadores estão sofrendo alterações muito rápidas e significativas. Por conta da avalanche de informações propiciadas pelas TICs, os professores se sentem angustiados. Sentem-se responsáveis por acompanhar esse movimento quase que alucinado, mas ao mesmo tempo não dominam as técnicas ou metodologias para se trabalhar com tanta diversidade. A identidade do professor está sendo redefinida, e isso gera uma certa insegurança nas suas ações. Estão receptivos às inovações, mas necessitam de um tempo para a incorporação, a reflexão e o aprendizado sobre as potencialidades destes recursos. Como nem sempre este tempo é possível, acabam por buscar respostas ou orientações práticas, que lhes possam servir no dia a dia com seus alunos, que em alguns casos, dominam estes recursos muito mais do que eles próprios. A formação do professor passa então a exigir que, além de se desenvolver as habilidades técnicas necessárias para a utilização destes recursos, se reflita sobre as novas maneiras de se aprender e de se construir conhecimento possibilitadas por estas ferramentas de comunicação.
• De que maneira a integração de diferentes mídias pode enriquecer o processo de aprendizagem?
No nosso cotidiano, fazemos uso das diferentes mídias na construção de nosso conhecimento, embora nem sempre nos damos conta disso. Quando abro o jornal pela manhã, escuto as notícias pelo rádio, assisto o telejornal à noite ou abro as páginas da Internet, vou construindo meus próprios significados a respeito dos acontecimentos da atualidade que vão sendo incorporados, e re-significados a partir da minha própria leitura de mundo. Ao assistir um filme da década de sessenta, consultar um livro de história ou ler uma revista daquele período, reúno informações de diferentes olhares, que me traçam um panorama de época que podem me fazer entender questões em que vivo hoje, assim como as pessoas viviam naquela época, como era a educação, qual era o papel da mulher, a concepção de mundo etc. As diversas mídias possibilitam olhar sobre determinado tema, sob diversos ângulos. Possibilitam uma construção pessoal de significado. O papel do educador então, está em aproveitar estas potencialidades para que o educando possa ser sujeito da construção do seu próprio conhecimento. Deve estar atento não apenas para a disponibilização e integração destes recursos, mas para criação de um ambiente propício ao debate crítico a respeito das informações que eles veiculam.
Além destas possibilidades, talvez já bem conhecidas dos educadores, as mídias digitais permitem a (inter) comunicação à distância, simultaneamente ou não. Assim, elas oferecem uma possibilidade maior de interação com o objeto de conhecimento e possibilitam o debate entre diversos atores localizados em regiões diferentes do mundo. Com essa tecnologia, é possível estarmos aqui, nos comunicando simultaneamente com diversos interlocutores. Esse recurso já está sendo explorado em cursos de formação de professores, em reuniões entre membros de empresas, na área médica. O importante da utilização das diversas mídias na educação é ter como foco a construção do conhecimento pelo educando, e que elas possibilitem um exercício de apropriação e criação de novos saberes.
• Qual a sua visão sobre o ensino à distância? Com todo esse movimento de inclusão digital, é possível um distanciamento dos jovens das salas de aula?
Realmente a idéia de ensino à distância não é tão recente. O Telecurso utiliza a TV, bem como o famoso curso do Instituto Universal, que faz uso dos correios para a comunicação e distribuição de seus materiais. Penso que há alguns aspectos que destacam a utilização da tecnologia digital como um recurso inovador, no que se refere ao ensino à distância. O primeiro aspecto está relacionado à possibilidade que este recurso oferece de interação entre os participantes de qualquer ambiente virtual para fins educacionais. Eu posso estar sozinha na minha casa, mas tenho a possibilidade de me comunicar, trocar informações, discordar, opinar, criar juntamente com outros participantes. O segundo aspecto é que, por esta razão, os conteúdos podem ser mais flexíveis, podem ser construídos coletivamente, com a participação dos envolvidos, a fim de que um objetivo comum seja atingido. Um terceiro aspecto a ser destacado é a condição que este recurso dá com relação ao tempo. Cada pessoa pode trabalhar no curso no momento que mais lhe for conveniente. Isso não quer dizer que em um curso não se devam estabelecer prazos para a execução de determinadas atividades. As modalidades de ensino à distância apresentadas anteriormente apóiam-se em conteúdos pré-determinados, fixados, nos quais os educandos não podem interferir. Outra característica destas é a de que os educandos não interagem com aqueles que estão, no caso do Telecurso, na telinha, e a não ser que estejam no mesmo espaço físico que os demais cursistas, também não podem interagir com seus colegas. Estas características, no entanto, não desmerecem a funcionalidade destas modalidades, que se forem bem aplicadas podem obter resultados muito positivos.
Com relação aos jovens se distanciarem das salas de aula, não acredito. O espaço escolar é um espaço que contém muitas outras coisas além do conhecimento científico. E penso que a vida que este espaço contém não é possível no espaço tecnológico.
• Nas escolas brasileiras a chegada dos micros se dá num ritmo lento. Assim também ocorre com a capacitação dos professores. O que esperar de avanços nesta área num país carente de recursos como o Brasil?
Não podemos esperar que todas as escolas estejam equipadas e todos os professores capacitados para dispararmos nossas ações. É certo que um dos grandes entraves para que estes avanços se concretizem está nestas duas pontas: equipamento + formação do educador. Na verdade, estas duas pontas são interligadas, pois não adianta formar professores onde não há equipamento assim como não adianta ter equipamentos onde ninguém sabe como utilizá-los. Mas em não tendo nem um e nem outro, o que é possível fazer?
Sinto que algumas ações demoram a acontecer, pois ficamos esperando. Esperando que os órgãos públicos dêem os computadores, depois esperando que os professores se formem, que seja dada uma formação a estes professores, esperando que o técnico destranque a porta do laboratório, que computadores mais velozes cheguem, que seja disponibilizada a Internet... Penso que temos de arriscar um pouco, pensar: o que eu posso fazer para “além disso”? O que é possível fazer a partir do que temos? Há muitas entidades e institutos da sociedade civil que estão dispostos a estabelecer parcerias, a desenvolver projetos junto com a escola pública. Na medida que nos mobilizamos caminharemos para frente. Há uma experiência muito importante no município de Manaus, que após um curso muito breve de formação de gestores para o uso das novas tecnologias, os cursistas se mobilizaram, mobilizaram seu corpo docente, sua comunidade local. E desta mobilização resultou um programa público que informatizou todas as escolas municipais além de propiciar formação. Experiências como estas nos indicam que além dos recursos e da formação há que se ter uma vontade política para avançar.
• Qual é a função social das inovações tecnológicas? Os meios digitais podem ser uma poderosa ferramenta contra o preconceito e a exclusão?
Em si mesmos, os recursos tecnológicos não são “bons” ou “maus”. Não excluem ou incluem as pessoas. Quem é bom ou mau, quem inclui ou exclui é o homem. Ele é quem faz uso dos recursos tecnológicos e dependendo do uso que faz, inclui ou exclui. Quando determinamos que informações importantes sejam transmitidas somente por um veículo, de acesso a uma única parcela da população, excluímos. Quando produzimos uma informação em uma linguagem que somente alguns conseguem compreender, excluímos. Quando algum equipamento que realiza diagnósticos médicos mais precisos é acessível somente a poucos, excluímos. Não é o recurso tecnológico que faz isso. Depende da utilização que se faz dele e quem utiliza é o homem. As inovações tecnológicas podem sim ser uma poderosa ferramenta contra o preconceito e a exclusão, se aqueles que as utilizarem tiverem como princípio valores de igualdade humana.
• As grandes transformações começam com as pessoas. São elas que movimentam idéias e geram o conhecimento necessário para transformar suas vidas. O professor está preparado para toda essa revolução digital e predisposto a mudar?
Paulo Freire nos dizia que não é possível falar ou pensar em educação sem sermos utópicos. Não é possível sermos educadores sem acreditarmos na mudança, na transformação. Este é o maior estímulo para a ação pedagógica: acreditarmos que o que fizermos na nossa sala de aula pode representar um mundo novo para nosso aluno e sua comunidade. Neste sentido, o professor está sempre preparado para a mudança. Todo professor traz dentro de si um ideal que o faz sempre buscar novos caminhos, os faz querer mudar o mundo. E esta característica forte, do perfil do professor, é que me faz pensar que ele está totalmente preparado para esta revolução tecnológica. Não que isto signifique que ele domine toda a tecnologia.Todos reconhecem que não será mais possível dominar um conhecimento totalmente, para posteriormente, apenas transmiti-lo. Estar preparado para a revolução tecnológica é estar aberto e receptivo, mesmo que isso cause um certo desconforto momentâneo. Acredito que ele está preparado, mas que não fará sozinho essa transformação. Não podemos colocar esta responsabilidade somente no professor.
• Num tempo em que há um literal “bombardeio” de informações de guerra e injustiças sociais apresentadas pelos meios de comunicação, como fazer para que os jovens saiam da posição de meros contempladores para protagonista de ações educativas dentro da própria escola? Os meios digitais podem funcionar como disseminadores de valores na sala de aula?
A diferença mais significativa entre os meios digitais e os meios de comunicação tradicionais está na possibilidade de interação que os primeiros nos oferecem. Saímos da passividade de telespectadores das matérias televisivas, para expressividade que a intercomunicação dos recursos de comunicação digitais nos oferecem. Qualquer meio de comunicação, digital ou não, é disseminador de valor. Isto não é uma característica exclusiva da tecnologia digital. No entanto, acredito um trabalho bem feito com as tecnologias digitais pode favorecer o desenvolvimento de uma consciência crítica em nossos jovens, uma vez que permitem o acesso a vários olhares da mesma situação, o debate, a interação entre vários interlocutores de opiniões diferentes
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