A TECNOLOGIA NO ENSINO NA VISÃO DE LUCILA MARIA PESCE
 

Doutora em Educação avalia a aplicação das novas tecnologias no ensino e debate o assunto em palestra no Complexo Argos, no próximo dia 3 de junho

A partir de um programa de formação docente que se valeu, dentre outros instrumentos, de ambiente digital de aprendizagem, a doutora Lucila Maria Pesce pretende falar um pouco sobre a relevância das mídias digitais; se as trocas nelas veiculadas ocorreram numa perspectiva dialógica.

A “Dialogia Digital na Educação à Distância” será abordada pela conferencista, às 14h do dia 3 de junho, no auditório Elis Regina, durante a 5ª Educática, que acontece de 2 a 6 de junho no Centro Educacional e Cultural Argos (Ceca).

Lucila é mestre e doutora em Educação pela PUC-SP. Sua linha de pesquisa é a educação e tecnologia. Graduada em Tecnologias e Mídias Digitais, com habilitação em Educação à Distância, também pela PUC-SP. Membro da equipe de design instrucional da Fundação Carlos Alberto Vanzolini (Rede do Saber), da USP; e professora do curso de pós-graduação lato sensu em Tecnologias Aplicadas à Educação, na Faculdade São Luís.

Conheça um pouco mais sobre palestrante e sua visão sobre as novas tecnologias aplicadas à educação.

• Qual a sua visão sobre as novas tecnologias da informação e da comunicação educacional? Essa é uma tendência mundial nos processos educacionais?

A educação, como toda instância social, também tende a, pouco a pouco, incorporar o uso das inovações tecnológicas no seu cotidiano. Essa tendência pode ser entendida como benéfica, se a referida incorporação ocorrer numa perspectiva crítica e emancipadora, que situe os sujeitos sociais envolvidos no bojo do processo educativo.

• Como é a receptividade dos professores a essas inovações na sala de aula?

Não podemos generalizar a receptividade dos professores, em relação às referidas inovações. Em 1999 tive a oportunidade de participar de uma pesquisa sobre as representações docentes acerca da incorporação das tecnologias no cotidiano escolar. Em geral, há três tendências:
1) há poucos neófilos, que vêem a tecnologia como panacéia de todas as fragilidades do processo educativo;
2) há diversos neófitos, que receiam que as tecnologias desumanizem o processo educativo e substituam grande parte dos recursos humanos engajados na educação, como ocorreu com a agricultura, a automação bancária, dentre outros.
3) Mas, felizmente, há alguns professores que percebem o avanço das tecnologias na sua exata dimensão, relevando o seu valor, embora fazendo uso crítico e criterioso das inovações tecnológicas.

• De que maneira a integração de diferentes mídias pode enriquecer o processo de aprendizagem?

Além do fator motivacional, há a possibilidade de trabalharmos com diferentes códigos semióticos (imagens, sons, animação, escrita...), os quais respaldam um pouco melhor os diferentes estilos de aprendizagem do sujeito cognoscente. Outra questão é que, em alguns programas como o Logo, tanto o aluno quanto o professor vêem representado na tela o percurso do seu raciocínio. Isso permite que o aluno realize uma metacognição: ao pensar sobre o seu pensamento, ele pode rever estratégias de resolução de problemas. Para o professor, a explicitação do percurso cognitivo do aluno pode dar-lhe mais subsídios para uma intervenção pedagógica consistente.

• Qual a sua visão sobre o ensino à distância? Com todo esse movimento de inclusão digital é possível um distanciamento dos jovens das salas de aula?

De fato precisamos tomar cuidado com os modismos e receber este novo aporte da Educação à Distância (EaD) com cautela. Entretanto, não podemos negar a relevância deste processo, sobretudo num país como o Brasil, de dimensões continentais. O encurtar distâncias é fundamental em qualquer projeto de formação de recursos humanos, que preveja a formação continuada, até para que o profissional em formação não necessite afastar-se do seu contexto para realizar os cursos de formação. Ao contrário, com a EaD ele pode formar-se, a partir de profunda reflexão sobre sua prática e conseqüente redimensionamento de suas intervenções pedagógicas. Quanto ao possível distanciamento dos jovens das salas de aula, não acredito que a EaD suprima a educação presencial, sobretudo se pensarmos em crianças e jovens, que, ao irem para a escola, têm possibilidade de compartilhar espaços sociais e afetivos, para além da aprendizagem meramente cognitiva. Razão e emoção constróem a cognição, em espaços sociais que vão além da mera troca de palavras (faladas e/ou escritas). O olho no olho, o contato pele a pele... tudo isso é fundamental à plena formação de crianças e jovens. A EaD pode redimensionar a educação presencial, mas não suprimi-la.

• Nas escolas brasileiras a chegada dos micros se dá num ritmo lento. Assim também ocorre com a capacitação dos professores. O que esperar de avanços nesta área num país carente de recursos como o Brasil?

A saída é investir cada vez mais na formação dos professores, segundo uma perspectiva reflexiva, que perceba o espaço de crescimento docente na sua colegialidade, em íntima relação com as diversas instâncias sociais da escola, sobretudo a comunidade. A capacitação meramente técnica do professor como usuário proficiente das inovações tecnológicas não tem dado conta da complexidade do processo de formação deste ator social.

• Qual a função social das inovações tecnológicas? Os meios digitais podem ser uma poderosa ferramenta contra o preconceito e a exclusão?

Os meios digitais podem ser uma poderosa ferramenta contra o preconceito e a exclusão, a depender do enfoque que se dê para o uso destas inovações tecnológicas. Podemos, com um mesmo pedaço de bolo, oferecê-lo ou jogá-lo no rosto de alguém. Da mesma forma, podemos tentar garantir a democratização do acesso às informações, numa perspectiva crítica, reflexiva e emancipadora, ou numa perspectiva alienante. A tecnologia é um instrumento; cabe ao homem refletir sobre o uso que pretende fazer dela.

• As grandes transformações começam com as pessoas. São elas que movimentam idéias e geram o conhecimento necessário para transformar suas vidas. O professor está preparado para toda essa revolução digital e predisposto a mudar?

Como pessoa e professora, o desejo de atuar como agente de transformações sempre me acompanhou. Não tenho porque duvidar da existência deste ideal, no coração de meus colegas professores. O que precisamos fazer é repensar suas condições pessoais e profissionais de formação técnica e humanista. Somente um programa sério de formação docente reflexiva, crítica e solidária pode nos auxiliar a enfrentar eventuais pré-conceitos ou despreparo temporários.

• Num tempo em que há um literal “bombardeio” de informações de guerra e injustiças sociais apresentadas pelos meios de comunicação, como fazer para que os jovens saiam da posição de meros contempladores para protagonistas de ações educativas dentro da própria escola? Os meios digitais podem funcionar como disseminadores de valores na sala de aula?

O protagonismo juvenil vem sendo percebido como uma das possíveis estratégias para que o jovem – mesmo em meio a informações desastrosas, que o incitam à descrença no ser humano e à incerteza de um futuro – assuma o seu processo de formação, como sujeito social que se situa como ator de sua própria história. Nesse processo, insere-se o protagonismo de ações educativas, na escola. Uma vez mais, digo: Os meios digitais podem ser poderosos aliados, a depender da perspectiva de uso a eles atribuída.