Doutora em Psicologia quer interagir
com os profissionais da Educação sobre os resultados alcançados com o uso da TICs
Realizar uma troca de idéias e de experiências sobre o uso das TICs na Educação do Pensamento, para o Desenvolvimento da Inteligência, é o objetivo da doutora em Psicologia, Léa da Cruz Fagundes. Ela apresentará algumas pesquisas que devem ser analisadas pelo auditório com quem pretende discutir idéias, sistemas conceituais e os resultados alcançados.
A palestra de Léa da Cruz Fagundes será realizada no auditório Elis Regina, no Centro de Capacitação do Complexo Argos, às 14h do dia 03 de junho. A conferência integra o Ciclo de Palestras da 5ª Educática – Tecnologias da Informação e da Comunicação Educacional, de Jundiaí.
Léa é professora universitária titular do Instituto de Psicologia da UFRGS, docente em pós-graduação em exercício nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional (mestrado), Psicologia do Desenvolvimento (mestrado e doutorado), e em Informática Educativa (doutorado). Além disso, é coordenadora Científica do Laboratório de Estudos Cognitivos (LEC), Instituto de Psicologia/ UFRGS, entre outros.
Conheça um pouco mais sobre a palestrante e sua visão sobre as novas tecnologias aplicadas à educação.
• Qual a sua visão sobre as novas tecnologias da informação e da
comunicação educacional? Essa é uma tendência mundial nos processos educacionais?
Nossa concepção, no LEC (Laboratório de Estudos Cognitivos do Instituto de Psicologia da UFRGS), sobre as chamadas TICs na Educação está fundamentada na Epistemologia Genética. Essa fundamentação se dá há mais de 20 anos, de estudos e pesquisas sobre aplicações consistentes da teoria piagetiana, para mudar o foco do ensino para o da aprendizagem. Na cultura da Sociedade do Conhecimento essa mudança de foco é uma tendência mundial. Mas o que é completamente inovador e ainda muito pouco conhecido é o suporte que a Psicologia Genética oferece para a aplicação das tecnologias numa nova educação - a educação do pensamento e do desenvolvimento da inteligência.
• Como é a receptividade dos professores a essas inovações na sala de aula?
Uma reação natural dos professores é a insegurança e o receio de não saber fazer, alem, é claro, da exigência de um esforço continuado porque é preciso reaprender bastante. Mas o que sempre conquista a adesão dos professores é a perspectiva concreta de tornar muito mais eficiente e gratificante o trabalho com seus alunos.
• De que maneira a integração de diferentes mídias pode enriquecer o
processo de aprendizagem?
Não é a integração de diferentes mídias que vai enriquecer esse processo, mas o modo pelo qual os estudantes puderem acessar essas mídias, explorá-las, relacioná-las, coordenar sua utilização. Elas precisam servir para que os aprendizes as integrem em “suas próprias produções”, como autores e pesquisadores criativos. Essa é a riqueza que vai aumentar o poder de pensar, refletir e de construir conhecimentos.
• Qual a sua visão sobre o ensino à distância? Com todo esse movimento de
inclusão digital é possível um distanciamento dos jovens das salas de aula?
O grande problema das novidades em educação é que sempre pensamos o novo para conservar o tradicional. Isto é, pensamos a tecnologia digital para “melhorar o quadro verde e o livro didático” !!! Mas a tecnologia da imprensa continua servindo, de acordo com suas características, na maravilhosa produção de livros. O filme e a TV continuam servindo à educação também como estimulantes mídias de comunicação, ainda não-interativas. Já os ambientes digitais, o suporte magnético da informação, os espaços cibernéticos, a Internet criando uma sociedade em Rede são interconectadores e podem garantir a interoperabilidade entre os recursos e entre os aprendizes.
As TICs precisam ser usadas para revolucionar metodologias, para favorecer as trocas entre as pessoas, entre os aprendizes e os conhecimentos; sejam das Artes ou das Ciências, da Tecnologia ou das práticas informais da vida. Poderá ser uma educação sem distâncias!
Interessante esta questão: - distanciamento dos jovens das salas de aula? Mas como não conseguimos notar que seus corpos estão presentes fisicamente, mas seus pensamentos voam longe?
Como não registramos que eles não conseguem estar empenhados se a sala de aula não os desafia, não lhes permite interagirem, não lhes proporciona sonharem, inventarem mundos novos, explorarem novos universos?
Eles estão presentes na sala, mas não estão aprendendo, pois são controlados para reproduzir o que não entendem e o fazem de modo inútil, só retendo na memória em curto prazo...
• Nas escolas brasileiras a chegada dos micros se dá num ritmo lento. Assim
também ocorre com a capacitação dos professores. O que esperar de avanços nesta área
num país carente de recursos como o Brasil?
O Brasil tem muito mais potencial do que acreditamos. Não é só a falta do dinheiro que impede as inovações e as melhorias na educação. Os paises ricos que dispõem de recursos não têm conseguido introduzir as tecnologias nas salas de aula para melhorar a qualidade da aprendizagem de seus jovens aprendizes! Se houver definição de políticas públicas, colaboração dos meios de comunicação e ação coordenada das instituições e dos atores sociais, podemos ainda dar o salto!
• Qual a função social das inovações tecnológicas? Os meios digitais podem
ser uma poderosa ferramenta contra o preconceito e a exclusão?
É só querer.
• As grandes transformações começam com as pessoas. São elas que movimentam
idéias e geram o conhecimento necessário para transformar suas vidas. O professor
está preparado para toda essa revolução digital e predisposto a mudar?
Nunca estamos totalmente preparados, pois sempre podemos aprender, enquanto vivermos. Já a predisposição, sim, é uma conquista às vezes muito dolorosa. Mas como nunca se aprende sozinho, podemos começar as mudanças trocando, interagindo e colaborando numa extensa cadeia. Ou melhor, em redes em que cada um oferte e, ao mesmo tempo, receba. É só lembrar que uma nova geração está se formando e que entre eles a incerteza, as mudanças, o respeito mútuo e a reciprocidade pode fazer toda a diferença.
• Num tempo em que há um literal “bombardeio” de informações de guerra e
injustiças sociais apresentadas pelos meios de comunicação, como fazer para que os
jovens saiam da posição de meros contempladores para protagonistas de ações
educativas dentro da própria escola? Os meios digitais podem funcionar como
disseminadores de valores na sala de aula?
É só mudar a estrutura e o funcionamento da Escola! Mudar a distribuição e os usos dos espaços, integrar os tempos. Isto é, acabar com o quadro horário de aulas de 50 minutos e derrubar, metaforicamente, as paredes das salas de aula. Abrir para o contexto de sua comunidade, para o ambiente natural e social da vida dessa comunidade.
Substituir a grade curricular por bancos digitais de situações-problema sobre conteúdos, tratados interdisciplinarmente, de desafios a projetos de investigação, de solução de problemas. Garantir a comunicação e o acesso às informações. Se todos puderem se comunicar livremente, se todos puderem planejar cooperativamente em pequenos grupos, por afinidade de interesses, se forem estimulados a aprender a pensar, a refletir, os professores poderão assumir as funções de especialistas parceiros e orientadores; e os aprendizes poderão questionar e formular problemas. Estará armado o cenário para que os jovens se tornem protagonistas de ações educativas não só dentro da própria escola, mas interagindo pela rede com outras escolas e com outras instituições.
A força de viver valores depende do respeito mútuo, da participação solidária, da liberdade de fazer escolhas. Tal liberdade pode favorecer a expressão de necessidades de receber orientações contingentes e sentir-se apoiado. A liberdade para tomar decisões implica fortemente a responsabilidade individual e social pelas próprias iniciativas e decisões. Nesse espaço cibernético tudo se torna transparente. Os afetos emergem pela consideração dos parceiros e dos docentes orientadores das aprendizagens que se tornam lúdicas, prazeirosas, gratificantes.
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