Veja o que pensa a doutora
em Educação sobre a aplicação das inovações tecnológicas empregadas
no aprendizado escolar
Hoje, por um lado, as redes de comunicação interativa
acompanham e ampliam uma profunda mutação da informação e
da relação com o saber, reestruturando as formas de
pensamento e linguagem utilizadas até então, dando a elas novas
e mais amplas dimensões. E, por outro lado, a escola, não consegue
abranger a racionalidade da oralidade, nem a complexidade do mundo
contemporâneo, pois seus referenciais estão vinculados às formas
de pensamento próprias da linguagem escrita, apesar de não conseguir vivenciar
plenamente a complexidade dessa linguagem.
À escola atual está posto, portanto, um novo desafio: pensar sobre a sua
função e fazer uma nova educação, uma educação que re(articule) as diferentes
linguagens utilizadas na contemporaneidade, incorporando as novas concepções,
as novas formas de pensamento, os novos estilos de saber que emergem de uma
ecologia cognitiva em formação, na prática cotidiana da escola.
Este, portanto, é o assunto que será discutido no primeiro dia do Ciclo de
Palestras da 5ª Educática, pela doutora em Educação, Maria Helena Bonilla, às 9h
do dia 3 de junho, no auditório Elis Regina, no Centro de Capacitação do Complexo
Argos.
Maria Helena Bonilla é professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da
Universidade Federal da Bahia (UFBA), com doutorado em Educação pela mesma
instituição..
“A Internet vai à Escola” foi o tema escolhido para o mestrado em Educação nas
Ciências na Unijuí (RS), de 1995 até 1997. Maria Helena também já atuou como
assessora de escolas públicas, estaduais e municipais, em Ijuí, Jóia e Coronel
Barros, no Rio Grande do Sul – nos projetos de Educação e Informática. Além
disso, foi professora da Unijuí e da Unicruz, bem como da Escola de Ensino Básico
CEAP.
Conheça um pouco mais sobre palestrante e sua visão sobre as novas
tecnologias aplicadas à educação.
• Qual a sua visão sobre as novas tecnologias da informação e da
comunicação educacional?
Essa é uma tendência mundial nos processos educacionais?
Em primeiro lugar entendo como problemática essa adjetivação: “educacional”.
Entendo que a questão fundamental é percebermos como podemos utilizar as
tecnologias da informação e comunicação para desencadearmos processos educativos
significativos para todos os envolvidos, o que implica percebermos essas
tecnologias não como meros instrumentos ou recursos didáticos, mas como
elementos estruturantes de novas relações, sejam elas educacionais, sociais, de
trabalho, ou lazer.
Nessa perspectiva, os processos educacionais estão começando a buscar justamente
essas novas relações. É um processo lento, mas o movimento já foi desencadeado.
O que precisamos é fortalecê-lo.
• Existe receptividade dos professores a essas inovações na sala de aula?
A maioria dos professores, por ter se constituído num contexto em que as
tecnologias da informação e comunicação não estavam presentes e por falta de
formação que lhes dê condições para entender e se posicionar a respeito delas,
sente estranhamento, medo, insegurança, o que os leva a adotar uma atitude de
cautela no processo de inserção das tecnologias nas práticas pedagógicas.
• De que maneira a integração de diferentes mídias pode enriquecer o
processo de aprendizagem?
O ser humano é um ser complexo. Portanto, o uso de diferentes lógicas,
diferentes linguagens, diferentes tecnologias, diferentes mídias no processo
educativo pode atender às diferentes características e dimensões de cada
indivíduo, o que potencializa os processos de aprendizagem.
• Qual a sua visão sobre o ensino à distância? Com todo esse movimento de
inclusão digital é possível um distanciamento dos jovens das salas de aula?
É incrível que ainda continuemos usando a lógica da substituição, ou da
superação, no contexto contemporâneo, um contexto que vem reivindicando
processos múltiplos e diferenciados. Por isso, não acredito no fim da sala de
aula presencial. Entendo que o ensino à distância é uma outra forma de se fazer
educação e que vem potencializar os processos educativos como um todo, e não
substituir as modalidades já existentes. Ao mesmo tempo, é importante que
presencial e a distância comecem a imbricar-se, de modo que espaços presenciais
sejam dinamizados por espaços virtuais e vice-versa.
• Nas escolas brasileiras a chegada dos micros se dá num ritmo lento. Assim
também ocorre com a capacitação dos professores. O que esperar de avanços nesta área
num país carente de recursos como o Brasil?
A falta de recursos é um fato. No entanto, entendo que a falta de políticas
públicas direcionadas para a formação dos professores e para a inserção das
tecnologias nas escolas sejam questões muito mais críticas e que precisam ser
enfrentadas com urgência. Somente quando as políticas públicas assumirem essa área
como fundamental para a educação, teremos mudanças significativas.
• Qual a função social das inovações tecnológicas? Os meios digitais podem
ser uma poderosa ferramenta contra o preconceito e a exclusão?
Investindo na universalização do acesso e na democratização do uso, o que
implica infra-estrutura disponível para toda a população brasileira e processos de
formação para além do aspecto técnico, as tecnologias podem desencadear processos
de inclusão social, pois dessa forma deixaremos de ser apenas consumidores de
informações e passaremos a ser produtores de cultura, conhecimento e informação.
• As grandes transformações começam com as pessoas. São elas que movimentam
idéias e geram o conhecimento necessário para transformar suas vidas. O professor
está preparado para toda essa revolução digital e predisposto a mudar?
O professor não está preparado. Ele percebe que precisa mudar, mas não sabe
como. Os cursos de formação inicial não os preparam para enfrentar esse novo
contexto e os cursos de formação continuada são aligeirados e se resumem a
treinamentos técnicos. Também, a forma como o sistema educacional brasileiro está
estruturado, com ritos e ritmos engessados, não possibilita ao professor criar, se
movimentar, estudar e propor novas dinâmicas. É necessário repensar todo o
processo...
• Num tempo em que há um literal “bombardeio” de informações de guerra e
injustiças sociais apresentadas pelos meios de comunicação, como fazer para que os
jovens saiam da posição de meros contempladores para protagonistas de ações
educativas dentro da própria escola? Os meios digitais podem funcionar como
disseminadores de valores na sala de aula?
Hoje o conceito de comunidade de aprendizagem vem se destacando justamente em
função dessa necessidade de fortalecimento das relações horizontais em todos os
espaços sociais, principalmente nas escolas. Para viabilizar essas relações os
meios digitais são imprescindíveis. Articulados em rede, todos os sujeitos passam a
ser co-autores dos processos educativos e dessa forma constroem outras práticas
nesse espaço de aprendizagem.
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