Lea é a primeira pesquisadora sobre o assunto
 

Revolução incubada - Potencial dos computadores ainda não é completamente utilizado nas escolas

Laboratórios de informática trancados. Crianças copiando no caderno o que aparece na tela do computador. Professores que acham que inovar é usar o "PowerPoint" (programa de apresentação de slides) no lugar do quadro negro. A forma com que muitas escolas utilizam hoje a tecnologia no processo educativo precisa mudar, concluem especialistas que participaram do congresso Educação e Tecnologia para o Desenvolvimento Humano, realizado pelo Instituto Ayrton Senna e pela Microsoft no final de semana passado. "O computador está sendo usado para ajudar o professor a fazer as mesmas coisas que antes. Talvez com um visual mais agradável. Mas não muda o sentido unidirecional, com o velho professor despejando informação e o aluno passivo recebendo", diz Eduardo Chaves, professor de filosofia da educação na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

É comum que os professores mandem os alunos lerem um texto em CD-ROM no lugar da enciclopédia, ou que pesquisem na internet em vez de usar a biblioteca. "É um grande desperdício de dinheiro usar o computador apenas para isso. Como ele ainda é uma ferramenta tão cara, precisa trazer um benefício proporcional ao seu custo", afirma Léa Fagundes, professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Os especialistas enfatizam que, em plena era da informação, não faz mais sentido conceber a educação como um processo vertical de aprendizado. "Isso era importante quando o acesso ao conhecimento era escasso. Hoje a televisão, o computador, os jornais colocam à nossa disposição informação atualizada, de forma muito mais atraente", diz Eduardo.

Para o professor da Unicamp, existem quatro funções do uso do computador e da Internet na educação que devem ser desempenhadas. A primeira é colocar pessoas em contato: alunos e professores trabalhando em algum projeto conjunto, especialistas que os estudantes podem contatar pela Internet etc. "Em última instância, educação é diálogo, como já dizia Sócrates", afirma Eduardo. A segunda é tornar a informação disponível e, a terceira, permitir que os próprios estudantes coloquem suas experiências no computador e compartilhem isso com os outros. "O mais importante é a quarta função: a criação de uma nova dimensão, onde se exercita a inteligência coletiva. Tudo aquilo que a raça humana pensa e discute está cada vez mais disponível na Internet, acessível de qualquer ponto do planeta", diz o professor.

A abundância de informações na rede, no entanto, é também um problema. A escola deve ajudar o aluno não só a localizar a informação procurada, mas saber avaliar se ela é confiável. A partir do momento em que os estudantes passam a ter espírito crítico e a desconfiar do que vêem, passam também a questionar as estruturas. Resistências Como toda mudança, a revolução digital também acarreta resistências dentro da escola, uma instituição conservadora por natureza. "Os professores sempre tiveram a responsabilidade do saber. O fato de os próprios jovens estarem se autoconcedendo a liberdade de acesso ao conhecimento abala o poder de uma geração mais velha de ditar os parâmetros para a mais jovem, e isso cria medo dos mais novos. E eles, de fato, sempre ficam melhores do que nós", diz Léa Fagundes, de 73, a pioneira no Brasil na pesquisa sobre o uso do computador como ferramenta de aprendizagem.

Desde 1981, ela assessora o Ministério da Educação na implantação de projetos na área. "Aprendemos na escola que o corpo humano é dividido em cabeça, tronco e membros, mas não é. Isso não é um corpo, e sim um cadáver. O cérebro funciona em rede. Nós só funcionamos linearmente por causa do suporte, desde o papiro até o papel, onde o conteúdo precisava ter começo, meio e fim. A tecnologia devolve às diferentes áreas do conhecimento as relações interdisciplinares. E quando nossos neurônios passam a funcionar dentro desse novo suporte, ele se liberta", ensina.

O primeiro reflexo dessa libertação se dá na melhora da auto-imagem. Ela conta que, em um projeto que coordenou nos anos 80 em uma escola de periferia, percebeu que os alunos chegavam às aulas descalços, desleixados. "Depois das aulas, começaram a vir de tênis, as meninas com presilhas nos cabelos. Eles se sentem poderosos quando conseguem programar a máquina", acredita.

É o caso de Danilo Delsino da Silva, 17, estudante do 1º ano do ensino médio na Escola Estadual Sapopemba. Há um mês, ele faz parte do grupo de 14 alunos e ex-alunos que coordena uma rádio interna, montada com um computador e uma mesa de som. Além de música (só MPB), eles colocam no ar notícias e informações sobre a escola. "Com a informática, a gente tem alternativas para aprender mais", diz.

Um dos 56 escolhidos pelo Instituto Ayrton Senna para o projeto "Sua Escola a 2000 por Hora", o colégio ganhou sete computadores -já tinha cinco recebidos do governo. Além do grupo da rádio, há um laboratório de informática em que os professores desenvolvem projetos com os alunos de segunda a quinta. Na sexta-feira, ele é aberto para os estudantes, que agendam previamente os horários para uso. "O computador é mais uma ferramenta para o aluno se sentir no mundo dele. Para o jovem de hoje, a informática é parte integrante da vida. Esses projetos funcionam graças a eles. Eles são melhores do que os professores; fazem tudo. Não preciso de técnicos", diz Beth Macedo, coordenadora da escola.

FONTE:
Texto: Alessandra Kormann
Fonte: Revista da Folha
Data da publicação: 22/06/2003