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NELSON PRETTO *
E MARIA HELENA BONILLA **
Especial para o JB
O programa Sociedade da Informação foi desenvolvido por
diversos países, no mundo inteiro, com o objetivo de elaborar políticas de
inserção neste mundo de conexões, tecnologias e globalização muito intensa. A
idéia desses países sempre foi a de juntar um grupo de especialistas em diversas
áreas do conhecimento para elaborar propostas iniciais em termos de educação,
saúde, cultura, trabalho, transportes, governo eletrônico, política de
desenvolvimento científico e tecnológico, entre outras, criando-se o chamado
Livro Verde (Green Book).
No Brasil, esse livro foi lançado oficialmente pela Presidência da República,
em agosto do ano passado, sendo esta, apenas, a primeira etapa do processo.
Agora, ele tem que ser amplamente discutido com a sociedade para que possa se
constituir em políticas que efetivamente atendam às necessidades da sociedade
brasileira.
Do ponto de vista filosófico e político, quando se elabora um programa como
este é necessário ter bem definido que projeto de sociedade se deseja, muito mais
que a simples identificação do projeto para uma sociedade da informação. Temos
que saber com qual concepção de sociedade estamos trabalhando.
Entre tantas concepções, a predominante contempla exclusivamente a questão do
mercado, pelo fenômeno da globalização. Nesta concepção, é a universalização do
acesso às tecnologias de informação e comunicação que vai oferecer a infra-
estrutura necessária à informatização e ao desenvolvimento da economia, o que
trará, como conseqüência natural dessa visão de mundo, o desenvolvimento da
sociedade como um todo, não sendo, portanto, prioritário investir em questões
sociais.
A história recente tem nos mostrado que essa lógica - primeiro o econômico e
depois o social - não está conseguindo dar conta das crônicas desigualdades
sociais no mundo todo. As questões econômica e de mercado, na nossa concepção,
devem ficar subjacentes à questão social. E aqui a questão da universalização do
acesso é condição necessária, mas insuficiente.
Falamos da necessidade de formar um cidadão pleno, mas o que percebemos é que
o conceito de cidadania está enfraquecido. Atualmente, ele está associado,
apenas, aos direitos do consumidor, o que é apenas uma parte da cidadania. Para
que a cidadania seja plena, precisamos investir na autonomia do cidadão e na
democratização da informação, o que implica potencializar processos horizontais
de organização, produção e aprendizagem coletiva que se constroem com o acesso às
informações.
Não podemos, portanto, nos contentar com o simples oferecimento de cursos
ligeiros e baratos, presenciais e a distância, que oportunizem o
(auto)aprendizado de noções básicas para o uso de serviços de informática e
internet.
Assim, o grande desafio será o de articular todas as organizações da sociedade
- universidades e faculdades (estaduais, federais e particulares), governos
federal, estaduais e municipais, a iniciativa privada - buscando, efetivamente, a
formação de cidadãos ativos e autônomos, universalizando o acesso à internet e
promovendo a democratização da informação.
A articulação de todas essas instâncias favorecerá a montagem de uma grande
conexão em rede, criando-se com isso uma rede científica, cultural e educacional
de sustentação e fortalecimento do tecido social. Imaginamos que um trabalho
conjunto do sistema educacional com as demais organizações não-educacionais possa
vir a potencializar essas conexões, tornando-as plenas de sentido para quem as
utiliza, com conteúdo criado localmente, de forma a trabalharmos na direção de
uma inclusão digital ativa e contextualizada para toda a população.
Aqui, a inclusão é, também, entendida no sentido pleno, o que implica algo
muito mais do que ter condições de, pela internet, comprar, acessar informações e
participar de cursos a distância. Significa a participação efetiva, onde os
indivíduos têm capacidade não só de usar e manejar o novo meio, mas, também, de
prover serviços, informações e conhecimentos, conviver e estabelecer relações que
promovam a inserção das múltiplas culturas nas redes, em rede.
O capítulo Educação na Sociedade da Informação do Livro Verde trata, com uma
certa intensidade, da educação a distância, apontando-a como a metodologia
adequada para resolver o problema da qualificação profissional, como se essa
qualificação fosse suficiente para inserir a população no mercado do trabalho e,
principalmente, no mercado de consumo.
Temos que estar atentos para o enfoque que queremos dar a essa questão. O que
precisamos hoje é fortalecer a conexão do sistema público de ensino, mais do que
centrar fogo nas questões de educação a distância, apesar de sabermos que elas
são importantes e devem ser consideradas. No entanto, no nosso ponto de vista,
isso é o que mais tem gerado equívocos.
Fala-se muito nas questões de alfabetização digital, mas não podemos esquecer
que a alfabetização digital não está desvinculada das demais alfabetizações - da
língua, dos números, da ciência, da expressão corporal. Em outras palavras, ou
articulam-se estes saberes intensamente ou a alfabetização será parcial, podendo
gerar o analfabetismo funcional digital. Não há como simplesmente dizer que se
vai qualificar um trabalhador ensinando rudimentos de informática, porque, desse
modo, ele será, também, um profissional de segunda categoria.
Portanto, utilizar educação a distância para ensinar a navegar na internet é
um grande equívoco. Não é necessário ensinar aos jovens a navegar na internet. A
meninada sabe fazer isto tranqüilamente. E, se estas tecnologias forem colocadas
dentro da escola, eles vão inclusive passar a utilizá-las de formas diferenciadas
das previstas.
Quanto à argumentação de que os adultos têm mais dificuldades com a
tecnologia, nossa experiência mostra-se divergente. A Faculdade de Educação fez,
recentemente, um trabalho com o Movimento dos Sem-Terra e, numa única tarde, os
monitores dos assentamentos já estavam navegando e utilizando o correio
eletrônico. Também tivemos uma experiência com os professores do Centro Federal
de Educação Tecnológica (Cefet-BA), e foi fantástico presenciar a familiarização-
relâmpago que aconteceu com os professores, que, no final do primeiro encontro,
já estavam demonstrando uma certa desenvoltura, dando explicações do porquê
estavam agindo desta ou daquela forma.
Esses são exemplos de que não há barreiras, sejam elas de idade, sejam elas da
área de onde o sujeito advém, para a inserção nessa cultura tecnológica. Também
mostram que não são necessários cursinhos do tipo introdução à informática,
organizados linearmente, para ensinar a navegar. A navegação é uma coisa
absolutamente simples e, mais do que colocar a população como usuária, como
consumidora, ela deve ser colocada na qualidade de produtora de conhecimento.
Todo ser humano, seja ele jovem ou adulto, vai se familiarizando à medida que
interage com a máquina, à medida que futuca de acordo com seus interesses e
necessidades, não existindo razão para a imposição de pré-requisitos, a qual
serve mais para barrar o processo de construção do que para estimulá-lo. O que
precisamos é formar uma população ativa que se aproprie das possibilidades
tecnológicas, para a efetivação de uma consciência coletiva inteligente, em busca
de uma cidadania global.
* Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia
www.ufba.br/pretto.
** Doutoranda em Educação na Faculdade de Educação da UFBA; bolsista Capes
www.faced.ufba.br/~bonilla
E-mail: bonilla@ufba.br
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